quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Natal dos ateus

Roelf Cruz Rizzolo

Lá na minha terra natal, bem ao sul, o natal não se chama natal. Oficialmente é o dia da família. Sendo o dia da família a comilança, a troca de presentes e as reuniões familiares fazem bastante sentido. Não existe semana santa e sim semana de turismo; 12 de outubro não é o aniversário de nenhuma santa e sim o dia das Américas em homenagem à chegada de Cristóvão Colombo e suas caravelas, e seis de janeiro - dia dos reis magos por aqui - é apenas o dia das crianças.

Lá o conceito de laicidade é levado a sério já faz muitas décadas e faz parte da política do estado desde 1919 com apoio de todos os partidos e de toda a sociedade. Em 1907 já tinha sido suprimida toda referência a Deus ou aos Evangelhos no juramento dos parlamentares e no mesmo ano era oficializado o divórcio por vontade única da mulher. Um acordo como o que o Lula assinou com o Vaticano, oficializando o ensino religioso nas escolas públicas seria inadmissível. Legalmente inadmissível desde 1877.

Isto nunca impediu as atividades religiosas, apenas as levou à esfera privada. Fui católico até a adolescência e minha infância em terras uruguaias foi feita sim de “navidades”, com missa do galo e presépio. As lembranças são mesmo muito boas.

O natal é importante para todos nós, mesmo para os ateus que, como eu, se criaram em meio a tradições cristãs. Não acredito num Jesus ressuscitado, mas levo a sério a mensagem que o natal carrega: paz na Terra aos homens de boa vontade. Assim, o espírito do natal transcende a fé e não deveria ser patrimônio de nenhuma religião. Todos devemos contribuir para a construção de um mundo mais fraterno, justo e tolerante. Não apenas no natal, mas sempre.

Neste espírito universal de confraternização as visões excludentes não deveriam ter lugar. Frases como “Só Jesus salva” ou como a que li dias atrás nesta Folha “Sem a passagem de Jesus a raça humana seguiria em progressiva decadência” servem mais para afastar as pessoas que uni-las em um mesmo ideal solidário. De acordo com as
estatísticas, o nascimento, vida e mensagem de Jesus são irrelevantes ou mesmo desconhecidas para aproximadamente 70% da população mundial. Esses não se salvam? São eles produto da “progressiva decadência”? Como reagiriam os cristãos a frases como “Só Oxum salva” ou “Sem a passagem de Maomé a raça humana seguiria em progressiva decadência”? Provavelmente ficariam ofendidos. Então, para que ofender os outros? Prever e sentir o que os outros sentiriam caso fizéssemos ou disséssemos alguma coisa é um mecanismo natural, base da empatia, que devemos sempre exercitar. Ateus e crentes.

Sempre pensei em um texto que nestas festas permitisse uma reflexão sobre a necessidade de aproximar as pessoas em vez de afastá-las. Que respeitasse todos os credos, diferenças e opções. E sempre me vem à cabeça um decálogo compilado por
Richard Dawkins com o intuito de substituir a dureza draconiana dos mandamentos bíblicos. Já o publiquei anteriormente, mas vale a pena trazê-lo de volta:
1- Não faça aos outros o que não quer que façam com você;
2- Em todas as coisas, faça de tudo para não provocar o mal;
3- Trate os outros seres humanos, as outras criaturas e o mundo em geral com amor, honestidade, fidelidade e respeito;
4- Não ignore o mal nem evite administrar a justiça, mas sempre esteja disposto a perdoar erros que tenham sido reconhecidos por livre e espontânea vontade e lamentados com honestidade;
5- Viva a vida com um sentimento de alegria e deslumbramento;
6- Sempre tente aprender algo de novo;
7- Ponha todas as coisas à prova; sempre compare suas ideias com os fatos, e esteja disposto a descartar mesmo a crença mais cara se ela não se adequar a eles;
8- Jamais se autocensure ou fuja da dissidência; sempre respeite o direito dos outros de discordar de você;
9- Crie opiniões independentes com base em seu próprio raciocínio e em sua experiência; não se permita ser dirigido pelos outros;
10- Questione tudo.
Este decálogo parece reunir o melhor do pensamento religioso junto com a visão humanista e questionadora que a cultura da ciência proporciona. Ninguém precisa abrir mão da sua fé para adotá-lo, nem impô-lo aos demais. E dentro do mesmo espírito de respeito e tolerância, cada um de nós pode acrescentar alguma coisa que nos resulte importante.

Para finalizar, a saúde da humanidade e do planeta onde ela vive depende da compreensão de sermos um único clã de sete bilhões, navegando num pálido e insignificante ponto azul num canto qualquer de um universo incompreensivelmente vasto. Temos que nos ajudar. Ninguém virá nos salvar a não ser nós mesmos.

Bom natal, ou bom dia da família, tanto faz, um abraço fraterno e até 2012!

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* Publicado na Folha da Região, em 24/12/2011, e no blog: http://ciencia.folhadaregiao.com.br/2011/12/o-natal-dos-ateus.html 
Fonte: El fenómeno de la laicidad como elemento identitario. El caso uruguayo. Néstor da Costa.
Civitas - Revista de Ciências Sociais, Vol. 11, No 2 (2011),
http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/civitas/article/view/9645

sábado, 17 de dezembro de 2011

Fundamentalismo ateu e fundamentalismo religioso

Desde que o jurista Ives Gandra Martins escreveu sobre o fundamentalismo ateu, algumas respostas interessantes foram dadas. Abaixo, o texto de Gandra e os contrapontos de Daniel Sottomaior, Hélio Schwartsman e Contardo Calligaris.
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Fundamentalismo ateu
Ives Gandra da Silva Martins

Voltávamos, Francisco Rezek e eu, de uma posse acadêmica em Belo Horizonte quando ele utilizou a expressão "fundamentalismo ateu" para se referir ao ataque orquestrado aos valores das grandes religiões que vivemos na atualidade.

Lembro-me de conversa telefônica que tive com meu saudoso e querido amigo Octavio Frias, quando discutíamos um editorial que estava para ser publicado sobre encíclica do papa João Paulo 2º, do qual discordava quanto a alguns temas.

Argumentei que a encíclica era destinada aos católicos e que quem não o era não deveria se preocupar. Com inteligência, perspicácia e bom senso, Frias manteve o editorial, mas acrescentou a observação de que o papa, embora cuidando de temas universais, dirigia-se fundamentalmente aos de fé cristã.

Quando fui sustentar, pela CNBB, perante o STF, a inconstitucionalidade da destruição de embriões para fins de pesquisa científica -pois são seres humanos, já que a vida começa na concepção-, antes da sustentação fui hostilizado, a pretexto de que a Igreja Católica seria contrária à ciência e que iria falar de religião, não de ciência e direito.

Fui obrigado a começar a sustentação informando que a Academia de Ciências do Vaticano tinha, na ocasião, 29 Prêmios Nobel, enquanto o Brasil até hoje não tem nenhum, razão pela qual só falaria de ciência e direito. Mostrei todo o apoio emprestado pela Academia às experiências com células-tronco adultas, que estavam sendo bem-sucedidas, enquanto havia um fracasso absoluto nas experiências com células-tronco embrionárias.

De lá para cá, o sucesso com as experiências utilizando células tronco adultas continuam cada vez mais espetaculares. Já as pesquisas com células embrionárias permanecem em estágio "embrionário".
Trago essas reminiscências, de velho advogado provinciano, para demonstrar minha permanente surpresa com todos aqueles que, sem acreditar em Deus, sentem necessidade de atacar permanentemente os que acreditam nos valores próprios das grandes religiões, que, como diz Toynbee em seu "Estudo da História", terminaram por conformar as grandes civilizações.

Por outro lado, Thomas E. Woods Jr., em seu livro "Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental", demonstra que, além dos fantásticos avanços na ciência feitos por sacerdotes cientistas, a Igreja ofereceu ao mundo moderno o seu maior instrumento de cultura e educação, ou seja, a universidade.

Aos que direcionam essa guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã e cumprem seu papel, nas mais variadas atividades, buscando a construção de um mundo melhor, creio que a expressão do ex-juiz da Corte de Haia é adequada.

Só não se assemelham aos "fundamentalistas" do Oriente Médio porque não há terroristas entre eles.
Num Estado, o respeito às crenças e aos valores de todos os segmentos da sociedade é a prova de maturidade democrática, como, aliás, o constituinte colocou no artigo 3º, inciso IV, da nossa Constituição Federal, ao proibir qualquer espécie de discriminação.

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, 76, advogado, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, é presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio.
Publicado na Folha de S.Paulo, em 24/11/2011.
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O fundamentalismo de cada dia
Daniel Sottomaior

Segundo Ives Gandra, em recente artigo nesta Folha ("Fundamentalismo ateu", 24/11), existe uma coisa chamada "fundamentalismo ateu", que empreende "guerra ateia contra aqueles que vivenciam a fé cristã". Nada disso é verdade, mas fazer os religiosos se sentirem atacados por ateus é uma estratégia eficaz para advogados da cúria romana. Com o medo, impede-se que indivíduos possam se aproximar das linhas do livre-pensamento.

É bom saber que os religiosos reconhecem o dano causado pelo fundamentalismo, mas resta deixar bem claro que essa conta não pode ser debitada também ao ateísmo.

Os próprios simpatizantes dos fundamentos do cristianismo, que pregam aderência estrita a eles, criaram a palavra "fundamentalista". Com o tempo, ela se tornou palavrão universal. O que ninguém parece ter notado é que, se esses fundamentos fossem tão bons como querem nos fazer crer, então o fundamentalismo deveria ser ótimo!

Reconhecer o fundamentalismo como uma praga é dizer implicitamente que a religião só se torna aceitável quando não é levada lá muito a sério, ideia com que enfaticamente concordam centenas de milhões de "católicos não praticantes" e religiosos que preferem se distanciar de todo tipo de igrejas e dogmas.
Já o ateísmo é somente a ausência de crença em todos os deuses, e não tem qualquer doutrina. Por isso, fundamentalismo ateu é um oximoro: uma ficção ilógica como "círculo quadrado".

Gandra defende uma encíclica papal dizendo que "quem não é católico não deveria se preocupar com ela". No entanto, quando ateus fazem pronunciamentos públicos, preocupa-se tanto que chama isso de "ataque orquestrado aos valores das grandes religiões".

Parece que só é ataque orquestrado se for contra a religião. Contra o ateísmo, "não se preocupem".
Aparentemente, para ele os ateus não têm os mesmos direitos que religiosos na exposição de ideias.
A religião nunca conviveu bem com a crítica mesmo. Já era hora de aprender. Se há ateus que fazem guerra contra cristãos, eu não conheço nenhum. Nossa guerra é contra ideias, não contra pessoas.
Os ateus é que são vistos como intrinsecamente maus e diuturnamente discriminados pelos religiosos, não o contrário. Existem processos movidos pelo Ministério Público e até condenação judicial por causa disso.

O jurista canta loas ao "respeito às crenças e aos valores de todos os segmentos da sociedade", mas aqui também pratica o oposto do que prega: ele está ao lado da maioria que defende com entusiasmo que o Estado seja utilizado como instrumento de sua própria religião.

Para entender como se sente um ateu no Brasil, basta imaginar um país que dá imunidade tributária e dinheiro a rodo a organizações ateias, mas nenhum às religiosas; que obriga oferecimento de estudos de ateísmo em escolas públicas, onde nada se fala de religião.

Um país que assina tratados de colaboração com países cuja única atividade é a promoção do ateísmo; cujos eleitores barram candidatos religiosos; que ostenta proeminentes símbolos da descrença em tribunais e Legislativos (onde se começam sessões com leitura de Nietzsche) e cuja moeda diz "deus não existe". E depois os fundamentalistas que fazem ataque orquestrado somos nós.

DANIEL SOTTOMAIOR é presidente da Atea (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos).
Publicado na Folha de S.Paulo, em 08/12/2011.
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Fundamentos do ateísmo
Hélio Schwartsman

Já que dois amigos meus, Ives Gandra Martins e Daniel Sottomaior, se engalfinharam em polêmica acerca de um suposto fundamentalismo ateu, aproveito para meter o bedelho nessa intrigante questão. Como não poderia deixar de ser, minha posição é bem mais próxima da de Daniel que da de Ives.

Não se pode chamar de fundamentalista quem exige provas antes de crer. Aqui, o alcance do ceticismo é dado de antemão: a dúvida vai até o surgimento de evidências fortes, as quais, em 2.000 anos de cristianismo, ainda não apareceram.

Ao contrário, dogmas vão contra tudo o que sabemos sobre o mundo. Virgens não costumam dar à luz e pessoas não saem por aí ressuscitando. Em contextos normais, um homem que veste saias e proclama transformar vinho em sangue seria internado. Quando se trata de religião, porém, aceitamos violações à física e à lógica. Por quê?

Ou Deus existe e espera de nós atitudes exóticas -e inconsistentes de uma fé para outra-, ou o problema está em nós, mais especificamente em nossos cérebros, que fazem coisas esquisitas no modo religioso.
Fico com a segunda hipótese. Corrobora-a um número crescente de cientistas que descrevem a religiosidade ou sua ausência como estilos cognitivos diversos. Ateus privilegiam a ciência e a lógica, ao passo que crentes dão mais ênfase a suas intuições, que estão sempre a buscar padrões e a criar agentes.
Posta nesses termos, fé e ceticismo se tornam um amálgama de influências genéticas e culturais difícil de destrinchar -e de modificar.

Como bom ateu liberal, aplaudo avanços no secularismo, já que contrabalançam o lado exclusivista das religiões, que não raro degenera em violência e obscurantismo. Mas, ao contrário de colegas mais veementes, acho que a religião, a exemplo do que se dá com filatelia, literatura e sexo, pode, se bem usada, ser fonte legítima de bem-estar e prazer.

helio@uol.com.br
Publicado na Folha de S.Paulo, em 10/12/2011.
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Os sentidos do fundamentalismo
Contardo Calligaris
Eis uma (pequena) contribuição ao debate sobre fundamentalismo que se deu, recentemente, na Folha (artigos de Ives Gandra da Silva Martins, 24/11, e Daniel Sottomaior, 8/12; cartas dos leitores Antônio

Ilário Felici e Francisco Guimarães, 9/12; coluna de Hélio Schwartsman, 10/12).
Fundamentalista é, antes de mais nada, quem leva a sério sua convicção e segue à risca os preceitos que derivam dela.

Se você for católico, não se divorciará nem comerá carne na Sexta da Paixão; se for judeu, no sábado, evitará ligar a luz elétrica; se for muçulmano, não tomará álcool e, caso seja mulher, circulará de véu fora de casa; se for ateu, não invocará a misericórdia divina, nem mesmo em momentos de extremo perigo.

Meu pai era convencido de que existem mistérios para os quais qualquer resposta seria desonesta.
Nesse seu agnosticismo, ele era fundamentalista no sentido que acabo de definir. Um dia, quando meu irmão e eu éramos já adultos, ele quis que prometêssemos que, se ele, na agonia, pedisse a assistência de um padre, nós lhe negaríamos esse recurso, considerando que sua sanidade mental teria se perdido no aperto acovardado da última hora.

Prometemos. Por sorte, ele morreu sem pedir conforto religioso algum. Se ele tivesse pedido, não sei se eu teria mantido minha promessa; à diferença dele, eu não sou fundamentalista: decido e escolho segundo as circunstâncias e não por princípio.

Mesmo assim, tenho respeito, se não simpatia, por esse tipo de fundamentalismo. E acho que todos deveriam poder levar (e viver) suas convicções a sério, se assim quiserem -claro, nos limites básicos impostos pelos códigos Penal e Civil, que regem a convivência social.

Mas tenho pressa de chegar ao outro sentido, pelo qual fundamentalista é quem exige que os preceitos que derivam de suas convicções ou de sua fé sejam observados por todos -ou mesmo que eles se transformem em lei da sociedade inteira.

Esse tipo de fundamentalista, seja qual for sua convicção, religiosa ou ateia, é animado pela necessidade de converter os outros, a qualquer custo. Em geral, ele acha que a violência de seu espírito "missionário" é um corolário de sua fé e uma prova de sua generosidade: "Forçando o outro a se converter, eu só quero seu bem, mesmo que seja contra a vontade dele".

Com esse tipo de fundamentalista, eu implico, por duas razões.

Primeiro, detesto que alguém esconda sua violência atrás de pretensas boas intenções e não gosto da ideia de que um outro imagine saber o que é "bom" para mim.

Segundo, não acredito que alguém possa querer converter os outros à força por generosidade.
Há duas razões pelas quais, em regra, alguém quer impor as normas de suas convicções aos outros, e ambas são péssimas:

1) Ele precisa que ao menos os outros respeitem essas normas, que ele preza, mas não consegue impor a si mesmo -ou seja, incapaz de obedecer a seus próprios princípios, ele quer validá-los pela obediência forçada dos outros;

2) Ele quer se livrar da inveja que ele sente da vida dos que não respeitam essas mesmas normas (para assinalar a componente de inveja, presente nos moralistas, Alfred Kinsey, o grande sociólogo e sexólogo, dizia que "ninfômana" e "tarado" são os que conseguem ter uma vida sexual mais intensa do que a da gente).

Em suma, os motores de muitos fundamentalismos missionários são a incapacidade de viver à altura dos preceitos pregados e a inveja de quem não respeita esses preceitos.
Por isso, no debate (ou na gritaria) entre homossexuais e evangélicos, por exemplo, nem preciso decidir se gosto mais de Oscar Wilde ou do apóstolo Paulo.

Pois, bem antes e independentemente disso, a oposição relevante é a seguinte: os homossexuais não pretendem que os evangélicos passem todos a transar com parceiros do mesmo sexo ou a frequentar baladas gays, enquanto os evangélicos pretendem que os homossexuais se convertam e renunciem a seu desejo (transformado em "pecado") -ou, no mínimo, que eles sejam impedidos de viver segundo suas próprias disposições e convicções.

Ou seja, para se situar nessa oposição, não é preciso escolher entre as ideias e as práticas das partes, mas entre os que querem regrar a vida de todos segundo seus preceitos e os que preferem que, nos limites da lei, todos possam pensar e agir como quiserem.
Assim sendo, como se diz na roleta, "façam suas apostas".

ccalligari@uol.com.br
@ccalligaris
Publicado na Folha de S.Paulo, em 15/12/2011.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O Brasil deve aprender com a ciência

Marcelo Gleiser

Com frequência, perguntam -me por que escrevo para o público não especializado. "Isso não toma tempo de sua pesquisa?" A resposta é sim, toma. Porém, para mim -e para outros cientistas que dedicam parte de seu tempo à divulgação científica- apresentar as ideias da ciência à sociedade é mais do que divertido ou intelectualmente estimulante: é nosso dever. E, mais importante ainda, é também vital para o nosso futuro.
Há diversas razões para isso. Aqui posso tocar em apenas algumas delas. Uma é que a ciência é parte essencial da nossa cultura e contribui crucialmente para a nossa visão de mundo. Pense que quando Cabral chegou aqui as pessoas pensavam que a Terra era o centro do cosmo e que nós éramos os escolhidos, criados à imagem de Deus. À medida que a compreensão científica do Universo avançou, nossa percepção de quem somos e de onde vivemos mudou.
A influência científica da nossa visão de mundo não se limita a ideias abstratas. Pelo contrário, nossa percepção da realidade é determinada por inovações tecnológicas. A morte recente de Steve Jobs, o líder da Apple, ilustra claramente como a ciência de ponta, aliada ao design inovador, pode mudar como a sociedade vive e se comunica.
Uma segunda razão se origina ao menos com os Atomistas da Grécia Antiga, se não antes, com Tales e Heráclito no século 6 a.C. Conforme escreveu o pensador romano Lucrécio em seu poema "Sobre a natureza das coisas": as pessoas vivem aterrorizadas porque não compreendem as causas por trás das coisas que acontecem na Terra e no céu, atribuindo-as cegamente aos caprichos de algum deus. Quando finalmente entendermos que nada pode surgir do nada, teremos uma imagem muito melhor de como formas materiais podem ser criadas ou como fenômenos podem ser ocasionados sem a ajuda de um deus.
A razão e a lógica são propostas como antídotos contra medos irracionais, baseados na fé cega em crenças supersticiosas. A ciência é uma consequência direta dessa profunda mudança de atitude: nada de se curvar perante divindades. Ao entender os mecanismos que regem a natureza, o homem poderá erguer-se, sem medo, perante a criação.
A ciência terá um papel cada vez maior no nosso futuro. Tome, por exemplo, a questão das fontes de energia e do aquecimento global. Quais as escolhas que melhor equilibram nossas necessidades e a saúde do planeta? Quais candidatos políticos se alinham com suas escolhas? Ou a engenharia genética e de como as células-tronco podem criar novas curas para doenças que afligem milhões de pessoas. Até que ponto nossas pesquisas devem ir? Até a clonagem humana? Será que a religião deve ter algum papel na decisão de quais pesquisas devem ou não ser financiadas?
Apenas uma população bem informada será capaz de tomar as decisões para um futuro melhor. Por isso, precisamos de mais ciência na mídia, nas escolas, nas nossas comunidades. Se o Brasil quer estar entre as cinco maiores potências mundiais nas próximas décadas, precisará de uma população educada cientificamente, preparada para competir com países que sabem da importância da ciência para o desenvolvimento.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita"
*Publicado na Folha de S.Paulo, em 23/10/2011.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

De outro espaço

Os gays e a Bíblia
Frei Betto

É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos. No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”...).

Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc). No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países-membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hetero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis, ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão;e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.

FREI BETTO é escritor.
* Publicado em O Globo, em 23/05/2011.

terça-feira, 24 de maio de 2011

De outro espaço

Sobre a vida após a morte
Marcelo Gleiser

Já que no domingo passado escrevi sobre o fim do mundo (era para ter sido ontem), é natural continuar nossa discussão refletindo sobre vida após a morte. especialmente nesta semana, quando o famoso físico Stephen Hawking falou do assunto em entrevista ao jornal inglês "The Guardian". "um conto de fadas para pessoas que têm medo do escuro", disse.
Mantendo a discussão ao nível "científico", o que podemos falar sobre experimentos que visam detectar vida após a morte?
eis o que escrevi sobre o tópico em meu livro "Criação Imperfeita": "quando ingressei no curso de física da PUC do Rio em1979, era a encarnação perfeita do cientista romântico, com barba, cachimbo e tudo.
Lembro-me, com um certo embaraço, do meu experimento para 'investigar a existência da alma'. Se a alma existia, pensei, tem que ter uma natureza ao menos em parte eletromagnética, de modo a poder animar o cérebro. e se eu convencesse um hospital a dar-me acesso a um paciente em coma, já prestes a morrer? Assim, poderia circundá lo com instrumentos capazes de detectar atividade eletromagnética.
Talvez pudesse detectar a cessação do desequilíbrio elétrico que caracteriza a vida [...] Por via das dúvidas, o paciente deveria também estar deitado sobre uma balança bem precisa, caso a alma tivesse peso." Continuo:"Na verdade,minha incursão no terreno da "teologia experimental" era mais brincadeira do que algo que levei a sério. Porem, minha metade vitoriana charlatã, devo dizer, tinha ao menos um predecessor.
em 1907, um certo Dr. Duncan MagDougall de Haverhill, em Massachusetts, conduziu uma série de experimentos para medir o peso da alma.emborasua metodologia fosse altamente duvidosa, seus resultados foram mencionados no prestigioso "New York Times":"Médico crê que alma tem peso", afirmou a manchete. O peso era em torno de 21,3 gramas, embora tenha havido algumas variações entre os poucos pacientes investigados. Como grupo de controle, ele pesou 15 cães, mostrando que eles não sofriam qualquer mudança de peso. O resultado não o surpreendeu, pois suspeitava que só humanos têm almas."
Os experimentos de Mag Dougall inspiraram o filme "21 Gramas", com Sean Penn fazendo o papel de um matemático à beira da morte.
De volta a Hawking, devo dizer que concordo com ele. Tudo o que sabemos sobre como a natureza opera indica que a vida é um fenômeno bioquímico emergente que tem um início e um fim.
Do ponto de vista científico, vida após a morte não faz sentido: existe a vida, um estado complexo da matéria em que um organismo interage ativamente com o ambiente, e existe a morte, um estado em que essas interações tornam-se passivas.
Morte é ausência de vida. (Mesmo o vírus só pode ser considerado0 vivo dentro de uma célula anfitriã.) É perfeitamente compreensível querer mais do que algumas décadas de vida, ter esperança de que existe algo mais.
Porém, nosso foco deve ser no aqui e no agora, e não no além. O que importa é o que fazemos coma vida que temos, curta que seja.Após ela, o que persiste são as memórias naqueles que continuam vivos.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro Criação Imperfeita

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 22/05/2011.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Contrafluxo

"O Fator Deus", por José Saramago

No ano em que os atentados de 11 de setembro completam 10 anos, achei oportuno, para reflexão, colocar no blog texto de José Saramago, escrito na época.

Infelizmente, talvez esse texto se revele bastante atual, no momento em que o nome de Deus é pronunciado em matanças no mundo árabe, em que, sob a Sua benção, pastor da Flórida incita a queima do Corão e funcionários da ONU são assassinados no Afeganistão, em que deputado exalta a própria homofobia, taxando gays como avessos à família e a Ele, em que psicótico, à moda norte-americana, mata crianças em uma escola no Rio, pactuando previamente o Seu perdão...

O mundo - as religiões, em particular - precisa rever seriamente o que compreende por Deus e como influencia os seus fiéis, procurando evitar as barbaridades cometidas em nome Dele.  

João F. Quirino


***

O fator Deus

JOSÉ SARAMAGO
Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.

Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um
negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.

Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "fator Deus", esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "fator Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "fator Deus" em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "fator Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "fator Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 19/09/2001.

segunda-feira, 21 de março de 2011

De outro espaço

Conversa sobre a Fé e a Ciência

Marcelo Gleiser


Na semana que vem sai meu novo livro, em parceria com Frei Betto e com intermediação de Waldemar Falcão, "Conversa Sobre a Fé e a Ciência", pela Nova Fronteira. Temos alguns eventos no Rio e em São Paulo, de que espero participar via teleconferência, aproveitando os benefícios de nossa era digital.
Conversas sobre ciência e religião, em geral, terminam em briga. Mas não deveriam. Talvez seja essa uma das lições mais importantes que Frei Betto e eu queremos passar.
Reconheço que somos dois exemplos um pouco alternativos. Eu, como cientista, mantenho uma posição de respeito pela religião. Frei Betto, como pensador político e teólogo cristão, mantém uma posição aberta em relação à ciência. Começamos a conversa sem nos conhecermos e terminamos amigos.
Frei Betto concorda comigo que é absurdo fechar os olhos para os avanços da ciência, negando suas descobertas. Concorda, também, que a religião não deve ser usada fora de seu contexto, especialmente como um substituto da ciência.
Usar a Bíblia como texto científico, tentar extrair de sua narrativa simbólica fatos sobre o surgimento do Universo e da vida, é retornar ao obscurantismo da Idade Média. Por outro lado, concordamos plenamente que a ciência não se propõe a atingir uma verdade "absoluta".
Verdades dependem de quando são formuladas, ou seja, do contexto histórico em que são buscadas.
Por exemplo, para os gregos, era "verdade" que a Terra era o centro do Universo; até o fim do século 18, era "verdade" que o Sol era o centro do Universo; até 1924, era "verdade" que a Via Láctea era a única galáxia no Universo. Com o avanço da ciência, essas verdades foram substituídas por outras.

Apesar de não haver dúvida de que certos fatos científicos permanecem inalterados com o passar do tempo (por exemplo, as leis de Newton), chamá-los de "verdades" talvez seja imprudente.
A ciência é uma narrativa que se ocupa do mistério, do não saber. Ela não tem capítulo final. Seu foco não é a busca pela verdade, mas por uma descrição do mundo que esteja de acordo com nossas observações.
Por outro lado, as religiões organizadas, com seu dogmatismo intransigente, distorcem o real sentido da fé. Nisso, Frei Betto e eu também concordamos plenamente (para ver no que mais concordamos e no que discordamos, é preciso ler o livro).
No cerne da religião, no ato de devoção religiosa, encontramos a espiritualidade pura, individual, que tece uma relação profunda entre o homem e o Universo e entre o homem e a sua consciência.
Frei Betto menciona Santa Teresa D'Ávila como alguém que alcançou um nível exemplar de transcendência pessoal e de comunhão com o divino. Aprendi muito durante nossa "conversa" e saí admirando meu interlocutor ainda mais.
Vejo a ciência, no aspecto mais puro e humano, como uma busca por transcendência, em que o espírito humano se une ao mundo natural para criar novas formas de pensar a nossa existência e, por meio da tecnologia, para criar expressões materiais dessa comunhão. Sob esse prisma, os caminhos da razão e do espírito são um só, simbolizando a essência do ser humano, que é a busca por significado num mundo cheio de mistérios.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 20/03/2011.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma reflexão sobre a parábola dos talentos

Jacira Jacinto da Silva


Resumidamente, de acordo com a parábola dos Talentos, o senhor, antes de partir, entregou valores em dinheiro a três dos seus servos, sendo um ao primeiro, dois ao segundo e dez ao terceiro. Quando retornou foi ter com os trabalhadores, quando os dois últimos prestaram contas, informando que trabalharam com aqueles valores e os multiplicaram, entregando em dobro a soma recebida. O primeiro deles alegou que temendo a severidade do seu senhor, enterrou o dinheiro recebido com medo de perdê-lo e agora o tinha íntegro para devolvê-lo. Conta o evangelho que o senhor abençoou os dois últimos e amaldiçoou o primeiro.

Convivemos uma vida inteira com a brilhante lição de vida traduzida pela Parábola dos Talentos, que certamente já ouvimos alguma vez, desperdiçando-a, descuidando de interpretá-la e extrair dela a grande lição que Jesus deixou sobre a Terra. E porque será? Porque não nos importamos com a bíblia? Porque as parábolas dizem pouco, ou porque nos recusamos a enfrentar a importante lição que tal pronunciamento representa?

Em verdade, nós vivemos fugindo das reflexões profundas porque, em regra, elas nos enchem de responsabilidade. Esta parábola, particularmente, embora seja lida com certa freqüência na igreja católica, nos centros espíritas, nas igrejas evangélicas e pentecostais, passa despercebida, como se não estivesse nos dizendo nada. Mas é esperteza nossa. Esperteza sim, pois encarar de frente uma imposição, legal ou moral, é muito difícil, especialmente quando sabemos que não a cumprimos. Tal se dá com esta passagem do evangelho de Jesus.

A lição é clara, de modo que não exige grande exercício hermenêutico para extrair dela a necessária compreensão. Não importa quantos talentos nós temos, ou seja, se temos muito dinheiro, muita simpatia, muita cultura, manejos especiais na arte ou no esporte, etc. Seja qual for o tamanho do nosso talento, nós precisamos multiplicá-lo, reproduzi-lo, expandi-lo, inundar o entorno da nossa potencialidade, fazendo com que esses talentos extravasem o nosso mundo particular e alcancem outras pessoas.

Quantas vezes, sendo bem sinceros com nós mesmos, já não pensamos que se estivéssemos em determinada situação, se possuíssemos mais dinheiro, ou se tivéssemos mais tempo, ou enfim, se fosse outra a nossa vida, nós nos dedicaríamos à prática do bem, fundaríamos uma escola, ajudaríamos projetos de proteção ambiental, lançaríamos uma campanha de conscientização política, etc. Ledo engano! Enquanto estamos pensando assim, nada mais estamos fazendo, senão enterrando nossos talentos, passando a vida em brancas nuvens e deixando-os inertes no fundo da terra. Será que não podemos fazer absolutamente nada para mudar o mundo?

Não dá para alegrar um pouco o ambiente familiar? Colocar umas flores em casa, mudar os móveis, colocar uma música para tocar? E convidar o vizinho para uma conversa? Visitar um doente? Doar algumas coisas que estão entulhando nosso armário, aproveitando a oportunidade para conhecer a vida dura de alguém que precisa da nossa sobra? E visitar a escola dos nossos filhos? Ou a do nosso bairro? Nunca podemos levar um biscoito na casa da vizinha só para desejar boa semana? E uma visita à Câmara Municipal? Ou a leitura de um bom livro em grupo, proporcionando o debate e o despertar das idéias?

Sim, há muito que fazer para reproduzir nossos talentos, mas acontece que somos tão egoístas e preguiçosos que às vezes nem nós mesmos os reconhecemos para não precisarmos dividir com ninguém.

Antes de colocar em prática essa parábola de Jesus –  registre-se, ensinada há dois mil anos –  precisamos conhecer os nossos talentos. Nós sabemos ler? Então já podemos ensinar alguém a ler. Nós estudamos arte? Então já podemos dividir esta aptidão, arrancando dotes artísticos que dormem escondidos em pessoas que não tiveram a oportunidade de exercitá-los. Nós temos o dom da oratória, sabemos falar bem? Então já podemos fazer palestras, passando adiante os estudos que fizemos e o aprendizado que deles extraímos.

Esta história de que não somos nada, quem somos nós, etc., é um ótimo pretexto para potencializarmos o nosso egoísmo e nos acomodarmos no nosso mundinho sem fazer nada de bom. Todos podemos trabalhar para construir um mundo melhor, bastando que estejamos interessados nisso, que tenhamos um anseio de colocar nossas energias a serviço dos outros, do mundo e de todos.

Se soubermos manejar a agulha de tricô, o serrote, o lápis, o livro, um instrumento musical, a tinta, a farinha, ou qualquer outro material que sirva para produzir conhecimento ou aliviar a dor de alguém, estamos prontos para multiplicar nossos talentos, sejam eles quais forem.

Nisso consiste a advertência de Jesus de Nazareth, para que não enterrássemos nossos talentos, fossem eles quantos fossem, um, dois, ou dez, eles precisariam ser trabalhados, valorizados e multiplicados. Todos podemos e todos devemos.


§ Juíza de direito em Bragança Paulista, espírita de nascimento, membro do CPDoc e da CEPABrasil.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Espiritismo galopante

Marcelo Leite

Talvez por excesso de otimismo, tendo a encarar a proliferação de filmes, livros e minisséries de TV sobre espiritismo e Chico Xavier como frutos maduros do oportunismo comercial. A credulidade do homem comum, afinal, precisa ser reavivada de tempos em tempos pela indústria cultural com novas doses de vampiros e zumbis, premonições e psicografias.

Surge agora a dúvida: quando produtores culturais mais "sérios" e reconhecidos também sucumbem às forças do além, haverá aí um fenômeno mais profundo da época, digno da atenção de ateus, céticos e admiradores das ciências naturais? Uma pergunta para Clint Eastwood e Alejandro González Iñárritu.

Aproveitando um raro fim de semana em São Paulo, no meu programa estava uma dose dupla de cinema: "Além da Vida", de Eastwood, e "Biutiful", de Iñárritu. Resultou numa dose dupla de espiritismo. No primeiro caso, pelo menos, era óbvia --a começar pelo título-- a vinculação com a morte.

Eastwood dispensa apresentações e elogios. É daquelas coisas da vida que ficam melhores quanto mais envelhecem. Seu filme anterior, "Gran Torino", é cativante. Mas até os melhores vinhos podem estragar-se com o correr do tempo, e uma ou outra garrafa termina com gosto de rolha ("bouchonné").

O sabor de rolha, revela investigação química, pode originar-se tanto da própria quanto dos tonéis em que o vinho envelhece. Nem sempre é possível separar uma coisa da outra. No caso de "Além da Vida", Eastwood assumiu o risco de avinagrar o filme com dois supostos fenômenos paranormais de uma vez: experiências de quase morte e comunicações com os mortos.

O primeiro garante o entrecho mais interessante do filme: jornalista francesa tem sua vida virada de ponta-cabeça depois de quase empacotar num tsunami e ter visões intrigantes --luzes intensas, experiência extracorpórea etc. --nos instantes em que se equilibrava entre viver e morrer. Nada implausível. Nada que contrarie o bom senso e não seja em princípio investigável pela neurociência.

Já há até livro sobre o assunto: "The Spiritual Doorway in the Brain" (A Porta Espiritual no Cérebro), do neurologista Kevin Nelson, de quem a Folha publicou uma entrevista recente. Ele entrevistou 55 pessoas que passaram por essas vivências limítrofes e alega ter descoberto nelas uma fronteira mais permeável entre sonho e vigília.

Eis como Nelson começa a explicar, neurologicamente, a experiência de quase morte: "Se o fluxo sanguíneo está diminuindo na região da cabeça, diminui também nos olhos, deixando a visão borrada nas bordas e criando a impressão de que há um túnel com luzes. Já quanto às experiências extracorpóreas, sabe-se que ao 'desligar' a região temporoparietal do cérebro, ligada à percepção espacial, podemos tirar a pessoa do seu corpo. Essa é a mesma área do cérebro que é 'desligada' durante o REM [fase do sono em que ocorrem os sonhos]."

O problema com "Além da Vida" está no personagem de George Lonegan, vivido por Matt Damon. Trata-se de um vidente recalcitrante, que tenta deixar de exercer o dom de passar a falar de imediato com o morto que o cliente tem em vista, ao tocar suas mãos. Eis aí um fenômeno inabordável pela pesquisa científica. Nem mesmo para documentação (quanto mais explicação), porque ocorre na esfera indevassável da experiência mental subjetiva.

Uma coisa é enxergar luzes, sombras, túneis, silhuetas ou faces --e atribuí-las a vivos e mortos, presentes ou futuros; as ocorrências visuais podem ao menos ser investigadas por seus correlatos físico-químicos no tecido cerebral. Outra, muito diversa, é "falar" com determinada pessoa morta e receber dela informações precisas, opiniões, juízos de valor, admoestações. Não há como registrá-los objetivamente, é preciso confiar em testemunhos. Só candidatos a um prêmio IgNobel se arriscariam.

Apesar disso, a fita de Eastwood põe um arremedo de explicação científica na boca de Lonegan, uma baboseira sobre febre na infância seguida de cirurgia da qual alguma ligação cerebral resultou embaralhada na cabeça do vidente. Um dos pontos mais baixos nas carreiras de Matt Damon e Clint Eastwood.

Também parece supérflua a atribuição de similar aptidão comunicativa além-túmulo a Uxbal, personagem encarnado por Javier Bardem em "Biutiful", de González Iñárritu. Ajudou a compor uma das cenas mais belas do filme, a do velório de três meninos, mas não chega a justificar a normalização cinematográfica dessa crendice sem pé nem cabeça.

Para dar vazão a esse lixo ocultista, bastam a TV e o rentável nicho de mercado em que pululam pescoços pálidos e sublimação de atos sexuais em mordidas vampirescas. Há gosto para tudo. De Eastwood e Iñárritu se espera biscoito mais refinado, livre do espessante espírita.


MARCELO LEITE é repórter especial da Folha de S.Paulo, autor dos livros "Folha Explica Darwin" (Publifolha) e "Ciência - Use com Cuidado" (Unicamp) e responsável pelo blog Ciência em Dia (Ciência em dia). Escreve às quartas-feiras neste espaço.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

De Outro Espaço

A DOENÇA DO CRIME

JOÃO PEREIRA COUTINHO


Portugal passou a semana em estado de choque. Não necessariamente por estar no limiar da bancarrota, preparando-se para receber o Fundo Monetário Internacional pela terceira vez em 37 anos de democracia. Mas pela morte de um conhecido jornalista luso barbaramente assassinado em Nova York. Eis os fatos: o jornalista, Carlos Castro, 65, era um "gadfly" social, que relatava nas páginas do diário "Correio da Manhã" (em que escrevo uma coluna política três vezes por semana) a vida dos famosos. Era também homossexual assumidíssimo e militantíssimo. E presença assídua na televisão portuguesa.
Depois do Natal, partiu para Nova York na companhia de um modelo, ou aspirante a modelo, de 21 anos. Paixão? Relação "profissional"?
A doutrina divide-se. Os familiares do rapaz juram publicamente a heterossexualidade dele.
Amigos do jornalista, pelo contrário, falam em paixão, namoro, quando muito relação "platônica".
Os mais céticos dizem simplesmente que o rapaz pretendia aproveitar-se do jornalista para subir na carreira. Não saberemos a verdade.
Porque a única verdade que interessa é a morte. No passado dia 7 de janeiro, em hotel de luxo da Broadway, Carlos Castro foi assassinado no quarto do hotel.
"Assassinado" é termo demasiado brando: foi espancado, estrangulado, desfigurado e, finalmente, castrado. Com um vulgar saca-rolhas.
O principal suspeito acabaria preso e está hoje internado no hospital psiquiátrico de Bellevue, após confissão dos atos.
Aguarda julgamento. Prisão perpétua é uma hipótese.
O caso horrorizou os portugueses pelos contornos lúgubres do homicídio e, claro, pela fama do jornalista.
Mas aquilo que me horrorizou a mim não foi propriamente o homicídio. Nem sequer as reações ao homicídio na internet, onde a boçalidade anônima só comprovou a quantidade de homossexuais reprimidos que existem em Portugal.
O que me horrorizou foram os médicos que assaltaram as televisões e os jornais para "explicar" o sucedido.
"Explicar", aqui, no sentido patológico do verbo: para todos eles, matar um ser humano com tal nível de brutalidade não é "normal". É a manifestação de uma doença, ou de várias, que privaram o jovem da sua racionalidade.
Ponto de ordem: não excluo tal hipótese. E admito que a defesa legal do rapaz acabe por alegar insanidade momentânea, embora a estratégia nem sempre seja a mais aconselhada: li algures que, nos Estados Unidos, é residual o número de casos onde é alegada a insanidade; e é ainda mais reduzido o número de sentenças baseadas na insanidade do réu, que normalmente passa mais tempo nos calabouços de um manicômio do que na prisão propriamente dita.
Mas o meu problema não é legal; é moral. É, no fundo, observar a forma como as nossas sociedades foram "medicalizando" o mal, negando-lhe a sua dimensão humana, demasiado humana.
Sempre foi assim, eu sei. A existência do mal é o problema teológico "par excellence": como conciliar a existência de um Deus onipotente e onisciente com a presença do mal no mundo?
Alguns brasileiros, confrontados com a inominável tragédia que se abateu sobre o país nestes dias, poderão mesmo repetir a frase de Voltaire da época do terremoto que dizimou Lisboa em 1755: "Como pode Deus permitir a morte de centenas, milhares de inocentes?"
Não tenho a pretensão de responder a tal questão. Duvido, aliás, que uma tal questão tenha resposta.
Prefiro lidar com tragédias menores, terrenas, domésticas. E perguntar, mais modestamente, por que motivo "medicalizamos" aquilo que nos é racionalmente aberrante?
Ou, dito de outra forma, por que razão nos recusamos a aceitar que o mal faz parte da nossa condição humana?
A resposta óbvia seria afirmar que a medicina, e em especial a neurologia e a psiquiatria, conquistaram novos e desconhecidos territórios: o assassino de ontem é o doente de hoje. E, quem sabe, será curado amanhã.
Talvez seja. Ou talvez não seja.
Mas no dia em que aceitarmos todos os crimes como meras manifestações de doença estaremos também a desculpar o criminoso e a subverter as categorias básicas da nossa vida comum.
Estaremos a apagar para sempre palavras como "liberdade", "responsabilidade", "culpa", "certo" e "errado".
Quem deseja mesmo viver num mundo assim?

jpcoutinho@folha.com.br

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 18/01/2011.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Entrevista com neurologista americano Kevin Nelson

NEUROLOGISTA AMERICANO CONTA EM LIVRO O QUE FAZ O CÉREBRO CRIAR AS IMAGENS DE TÚNEIS DE LUZ E A VISÃO EXTRACORPÓREA
GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO

Túneis iluminados, espíritos e a sensação de que o corpo está levitando. As experiências de quem ficou entre a vida e a morte são o material de trabalho do neurologista Kevin Nelson. Para entender melhor o fenômeno, Nelson fez um estudo com 55 pessoas que relataram essas experiências e descobriu que, nelas, os limites entre os estágios da consciência são mais tênues. É o que ele relata em "The Spiritual Doorway in the Brain", livro lançado em dezembro nos EUA. O médico concedeu entrevista à Folha, por telefone.
*** 

Folha - Qual a explicação para o fenômeno da quase morte?
Kevin Nelson
- Há no cérebro uma espécie de "interruptor" que alterna entre os estágios da consciência. Ao dormir, passamos pelos estágios de vigília, sono não REM e sono REM. Em algumas pessoas, a fronteira entre esses estágios não é tão marcada e, em momentos de crise, o estágio REM invade a vigília e causa os efeitos descritos nas experiências de quase morte.

Quais são esses momentos de crise?
Uma parada cardíaca, por exemplo. O "interruptor" que modula entre a vigília e o REM é uma parte essencial do sistema de reflexos do sistema nervoso. Quando o fluxo sanguíneo diminui no cérebro, acionamos esses reflexos, localizados numa área bastante primitiva do cérebro. É quando ocorrem as experiências de quase morte e nos movemos em direção às fronteiras entre a vigília e o REM. Em algumas pessoas, isso pode ficar misturado.

Essas experiência só ocorrem em situações extremas?
Sabemos que desmaios também podem desencadear a experiência de quase morte, pelos mesmos mecanismos: as pessoas se sentem em perigo e ocorre alteração da pressão sanguínea na cabeça. O fato fascinante é que um terço das pessoas desmaia em algum momento da vida, o que pode fazer dessas experiências algo mais comum do que se pensa.

Há algo diferente no cérebro das pessoas que têm essas sensações?
Em 2005, comecei a estudar pessoas com um histórico de quase morte. Depois de comparar 55 pacientes nessa situação com 55 outras pessoas que nunca passaram por isso, descobrimos que o primeiro grupo era mais suscetível a ter essa intromissão do sono REM na vigília.

Pessoas relatam luzes e a sensação de levitar. Por quê?
Se o fluxo sanguíneo está diminuindo na região da cabeça, diminui também nos olhos, deixando a visão borrada nas bordas e criando a impressão de que há um túnel com luzes. Já quanto às experiências extracorpóreas, sabe-se que ao "desligar" a região temporoparietal do cérebro, ligada à percepção espacial, podemos tirar a pessoa do seu corpo. Essa é a mesma área do cérebro que é "desligada" durante o REM.

E as alucinações?
Quando entramos no estágio REM, o cérebro ativa o mesmo mecanismo que produz os sonhos. Mas as alucinações da quase morte não são sonhos propriamente ditos, parecem mais sonhos lúcidos, porque ocorrem enquanto estamos conscientes.

Você já recebeu críticas por estudar cientificamente o que alguns julgam ser uma experiência espiritual?
Não estou interessado em saber por que o cérebro age de alguma forma ou por que esse "momento espiritual" ocorre, mas em como o cérebro trabalha. Se separamos o "por que" do "como", muito do conflito entre ciência e religião desaparece.
***
THE SPIRITUAL DOORWAY IN
THE BRAIN
Kevin Nelson
EDITORA Dutton
QUANTO US$ 16,77 (R$ 28,31), na Amazon (336 págs.)
* Entrevista publicada na Folha de S.Paulo, em 17/01/2011.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Jô Soares entrevista socióloga que lança livro sobre espiritismo

A socióloga e historiadora Célia da Graça Arribas, em entrevista no Programa do Jô, de 17 de dezembro de 2010, fala sobre o espiritismo e sobre o livro de sua autoria, recém lançado, intitulado "Afinal, espiritismo é religião?" (Editora Alameda).