segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma reflexão sobre a parábola dos talentos

Jacira Jacinto da Silva


Resumidamente, de acordo com a parábola dos Talentos, o senhor, antes de partir, entregou valores em dinheiro a três dos seus servos, sendo um ao primeiro, dois ao segundo e dez ao terceiro. Quando retornou foi ter com os trabalhadores, quando os dois últimos prestaram contas, informando que trabalharam com aqueles valores e os multiplicaram, entregando em dobro a soma recebida. O primeiro deles alegou que temendo a severidade do seu senhor, enterrou o dinheiro recebido com medo de perdê-lo e agora o tinha íntegro para devolvê-lo. Conta o evangelho que o senhor abençoou os dois últimos e amaldiçoou o primeiro.

Convivemos uma vida inteira com a brilhante lição de vida traduzida pela Parábola dos Talentos, que certamente já ouvimos alguma vez, desperdiçando-a, descuidando de interpretá-la e extrair dela a grande lição que Jesus deixou sobre a Terra. E porque será? Porque não nos importamos com a bíblia? Porque as parábolas dizem pouco, ou porque nos recusamos a enfrentar a importante lição que tal pronunciamento representa?

Em verdade, nós vivemos fugindo das reflexões profundas porque, em regra, elas nos enchem de responsabilidade. Esta parábola, particularmente, embora seja lida com certa freqüência na igreja católica, nos centros espíritas, nas igrejas evangélicas e pentecostais, passa despercebida, como se não estivesse nos dizendo nada. Mas é esperteza nossa. Esperteza sim, pois encarar de frente uma imposição, legal ou moral, é muito difícil, especialmente quando sabemos que não a cumprimos. Tal se dá com esta passagem do evangelho de Jesus.

A lição é clara, de modo que não exige grande exercício hermenêutico para extrair dela a necessária compreensão. Não importa quantos talentos nós temos, ou seja, se temos muito dinheiro, muita simpatia, muita cultura, manejos especiais na arte ou no esporte, etc. Seja qual for o tamanho do nosso talento, nós precisamos multiplicá-lo, reproduzi-lo, expandi-lo, inundar o entorno da nossa potencialidade, fazendo com que esses talentos extravasem o nosso mundo particular e alcancem outras pessoas.

Quantas vezes, sendo bem sinceros com nós mesmos, já não pensamos que se estivéssemos em determinada situação, se possuíssemos mais dinheiro, ou se tivéssemos mais tempo, ou enfim, se fosse outra a nossa vida, nós nos dedicaríamos à prática do bem, fundaríamos uma escola, ajudaríamos projetos de proteção ambiental, lançaríamos uma campanha de conscientização política, etc. Ledo engano! Enquanto estamos pensando assim, nada mais estamos fazendo, senão enterrando nossos talentos, passando a vida em brancas nuvens e deixando-os inertes no fundo da terra. Será que não podemos fazer absolutamente nada para mudar o mundo?

Não dá para alegrar um pouco o ambiente familiar? Colocar umas flores em casa, mudar os móveis, colocar uma música para tocar? E convidar o vizinho para uma conversa? Visitar um doente? Doar algumas coisas que estão entulhando nosso armário, aproveitando a oportunidade para conhecer a vida dura de alguém que precisa da nossa sobra? E visitar a escola dos nossos filhos? Ou a do nosso bairro? Nunca podemos levar um biscoito na casa da vizinha só para desejar boa semana? E uma visita à Câmara Municipal? Ou a leitura de um bom livro em grupo, proporcionando o debate e o despertar das idéias?

Sim, há muito que fazer para reproduzir nossos talentos, mas acontece que somos tão egoístas e preguiçosos que às vezes nem nós mesmos os reconhecemos para não precisarmos dividir com ninguém.

Antes de colocar em prática essa parábola de Jesus –  registre-se, ensinada há dois mil anos –  precisamos conhecer os nossos talentos. Nós sabemos ler? Então já podemos ensinar alguém a ler. Nós estudamos arte? Então já podemos dividir esta aptidão, arrancando dotes artísticos que dormem escondidos em pessoas que não tiveram a oportunidade de exercitá-los. Nós temos o dom da oratória, sabemos falar bem? Então já podemos fazer palestras, passando adiante os estudos que fizemos e o aprendizado que deles extraímos.

Esta história de que não somos nada, quem somos nós, etc., é um ótimo pretexto para potencializarmos o nosso egoísmo e nos acomodarmos no nosso mundinho sem fazer nada de bom. Todos podemos trabalhar para construir um mundo melhor, bastando que estejamos interessados nisso, que tenhamos um anseio de colocar nossas energias a serviço dos outros, do mundo e de todos.

Se soubermos manejar a agulha de tricô, o serrote, o lápis, o livro, um instrumento musical, a tinta, a farinha, ou qualquer outro material que sirva para produzir conhecimento ou aliviar a dor de alguém, estamos prontos para multiplicar nossos talentos, sejam eles quais forem.

Nisso consiste a advertência de Jesus de Nazareth, para que não enterrássemos nossos talentos, fossem eles quantos fossem, um, dois, ou dez, eles precisariam ser trabalhados, valorizados e multiplicados. Todos podemos e todos devemos.


§ Juíza de direito em Bragança Paulista, espírita de nascimento, membro do CPDoc e da CEPABrasil.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Espiritismo galopante

Marcelo Leite

Talvez por excesso de otimismo, tendo a encarar a proliferação de filmes, livros e minisséries de TV sobre espiritismo e Chico Xavier como frutos maduros do oportunismo comercial. A credulidade do homem comum, afinal, precisa ser reavivada de tempos em tempos pela indústria cultural com novas doses de vampiros e zumbis, premonições e psicografias.

Surge agora a dúvida: quando produtores culturais mais "sérios" e reconhecidos também sucumbem às forças do além, haverá aí um fenômeno mais profundo da época, digno da atenção de ateus, céticos e admiradores das ciências naturais? Uma pergunta para Clint Eastwood e Alejandro González Iñárritu.

Aproveitando um raro fim de semana em São Paulo, no meu programa estava uma dose dupla de cinema: "Além da Vida", de Eastwood, e "Biutiful", de Iñárritu. Resultou numa dose dupla de espiritismo. No primeiro caso, pelo menos, era óbvia --a começar pelo título-- a vinculação com a morte.

Eastwood dispensa apresentações e elogios. É daquelas coisas da vida que ficam melhores quanto mais envelhecem. Seu filme anterior, "Gran Torino", é cativante. Mas até os melhores vinhos podem estragar-se com o correr do tempo, e uma ou outra garrafa termina com gosto de rolha ("bouchonné").

O sabor de rolha, revela investigação química, pode originar-se tanto da própria quanto dos tonéis em que o vinho envelhece. Nem sempre é possível separar uma coisa da outra. No caso de "Além da Vida", Eastwood assumiu o risco de avinagrar o filme com dois supostos fenômenos paranormais de uma vez: experiências de quase morte e comunicações com os mortos.

O primeiro garante o entrecho mais interessante do filme: jornalista francesa tem sua vida virada de ponta-cabeça depois de quase empacotar num tsunami e ter visões intrigantes --luzes intensas, experiência extracorpórea etc. --nos instantes em que se equilibrava entre viver e morrer. Nada implausível. Nada que contrarie o bom senso e não seja em princípio investigável pela neurociência.

Já há até livro sobre o assunto: "The Spiritual Doorway in the Brain" (A Porta Espiritual no Cérebro), do neurologista Kevin Nelson, de quem a Folha publicou uma entrevista recente. Ele entrevistou 55 pessoas que passaram por essas vivências limítrofes e alega ter descoberto nelas uma fronteira mais permeável entre sonho e vigília.

Eis como Nelson começa a explicar, neurologicamente, a experiência de quase morte: "Se o fluxo sanguíneo está diminuindo na região da cabeça, diminui também nos olhos, deixando a visão borrada nas bordas e criando a impressão de que há um túnel com luzes. Já quanto às experiências extracorpóreas, sabe-se que ao 'desligar' a região temporoparietal do cérebro, ligada à percepção espacial, podemos tirar a pessoa do seu corpo. Essa é a mesma área do cérebro que é 'desligada' durante o REM [fase do sono em que ocorrem os sonhos]."

O problema com "Além da Vida" está no personagem de George Lonegan, vivido por Matt Damon. Trata-se de um vidente recalcitrante, que tenta deixar de exercer o dom de passar a falar de imediato com o morto que o cliente tem em vista, ao tocar suas mãos. Eis aí um fenômeno inabordável pela pesquisa científica. Nem mesmo para documentação (quanto mais explicação), porque ocorre na esfera indevassável da experiência mental subjetiva.

Uma coisa é enxergar luzes, sombras, túneis, silhuetas ou faces --e atribuí-las a vivos e mortos, presentes ou futuros; as ocorrências visuais podem ao menos ser investigadas por seus correlatos físico-químicos no tecido cerebral. Outra, muito diversa, é "falar" com determinada pessoa morta e receber dela informações precisas, opiniões, juízos de valor, admoestações. Não há como registrá-los objetivamente, é preciso confiar em testemunhos. Só candidatos a um prêmio IgNobel se arriscariam.

Apesar disso, a fita de Eastwood põe um arremedo de explicação científica na boca de Lonegan, uma baboseira sobre febre na infância seguida de cirurgia da qual alguma ligação cerebral resultou embaralhada na cabeça do vidente. Um dos pontos mais baixos nas carreiras de Matt Damon e Clint Eastwood.

Também parece supérflua a atribuição de similar aptidão comunicativa além-túmulo a Uxbal, personagem encarnado por Javier Bardem em "Biutiful", de González Iñárritu. Ajudou a compor uma das cenas mais belas do filme, a do velório de três meninos, mas não chega a justificar a normalização cinematográfica dessa crendice sem pé nem cabeça.

Para dar vazão a esse lixo ocultista, bastam a TV e o rentável nicho de mercado em que pululam pescoços pálidos e sublimação de atos sexuais em mordidas vampirescas. Há gosto para tudo. De Eastwood e Iñárritu se espera biscoito mais refinado, livre do espessante espírita.


MARCELO LEITE é repórter especial da Folha de S.Paulo, autor dos livros "Folha Explica Darwin" (Publifolha) e "Ciência - Use com Cuidado" (Unicamp) e responsável pelo blog Ciência em Dia (Ciência em dia). Escreve às quartas-feiras neste espaço.