quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

De Outro Espaço

A DOENÇA DO CRIME

JOÃO PEREIRA COUTINHO


Portugal passou a semana em estado de choque. Não necessariamente por estar no limiar da bancarrota, preparando-se para receber o Fundo Monetário Internacional pela terceira vez em 37 anos de democracia. Mas pela morte de um conhecido jornalista luso barbaramente assassinado em Nova York. Eis os fatos: o jornalista, Carlos Castro, 65, era um "gadfly" social, que relatava nas páginas do diário "Correio da Manhã" (em que escrevo uma coluna política três vezes por semana) a vida dos famosos. Era também homossexual assumidíssimo e militantíssimo. E presença assídua na televisão portuguesa.
Depois do Natal, partiu para Nova York na companhia de um modelo, ou aspirante a modelo, de 21 anos. Paixão? Relação "profissional"?
A doutrina divide-se. Os familiares do rapaz juram publicamente a heterossexualidade dele.
Amigos do jornalista, pelo contrário, falam em paixão, namoro, quando muito relação "platônica".
Os mais céticos dizem simplesmente que o rapaz pretendia aproveitar-se do jornalista para subir na carreira. Não saberemos a verdade.
Porque a única verdade que interessa é a morte. No passado dia 7 de janeiro, em hotel de luxo da Broadway, Carlos Castro foi assassinado no quarto do hotel.
"Assassinado" é termo demasiado brando: foi espancado, estrangulado, desfigurado e, finalmente, castrado. Com um vulgar saca-rolhas.
O principal suspeito acabaria preso e está hoje internado no hospital psiquiátrico de Bellevue, após confissão dos atos.
Aguarda julgamento. Prisão perpétua é uma hipótese.
O caso horrorizou os portugueses pelos contornos lúgubres do homicídio e, claro, pela fama do jornalista.
Mas aquilo que me horrorizou a mim não foi propriamente o homicídio. Nem sequer as reações ao homicídio na internet, onde a boçalidade anônima só comprovou a quantidade de homossexuais reprimidos que existem em Portugal.
O que me horrorizou foram os médicos que assaltaram as televisões e os jornais para "explicar" o sucedido.
"Explicar", aqui, no sentido patológico do verbo: para todos eles, matar um ser humano com tal nível de brutalidade não é "normal". É a manifestação de uma doença, ou de várias, que privaram o jovem da sua racionalidade.
Ponto de ordem: não excluo tal hipótese. E admito que a defesa legal do rapaz acabe por alegar insanidade momentânea, embora a estratégia nem sempre seja a mais aconselhada: li algures que, nos Estados Unidos, é residual o número de casos onde é alegada a insanidade; e é ainda mais reduzido o número de sentenças baseadas na insanidade do réu, que normalmente passa mais tempo nos calabouços de um manicômio do que na prisão propriamente dita.
Mas o meu problema não é legal; é moral. É, no fundo, observar a forma como as nossas sociedades foram "medicalizando" o mal, negando-lhe a sua dimensão humana, demasiado humana.
Sempre foi assim, eu sei. A existência do mal é o problema teológico "par excellence": como conciliar a existência de um Deus onipotente e onisciente com a presença do mal no mundo?
Alguns brasileiros, confrontados com a inominável tragédia que se abateu sobre o país nestes dias, poderão mesmo repetir a frase de Voltaire da época do terremoto que dizimou Lisboa em 1755: "Como pode Deus permitir a morte de centenas, milhares de inocentes?"
Não tenho a pretensão de responder a tal questão. Duvido, aliás, que uma tal questão tenha resposta.
Prefiro lidar com tragédias menores, terrenas, domésticas. E perguntar, mais modestamente, por que motivo "medicalizamos" aquilo que nos é racionalmente aberrante?
Ou, dito de outra forma, por que razão nos recusamos a aceitar que o mal faz parte da nossa condição humana?
A resposta óbvia seria afirmar que a medicina, e em especial a neurologia e a psiquiatria, conquistaram novos e desconhecidos territórios: o assassino de ontem é o doente de hoje. E, quem sabe, será curado amanhã.
Talvez seja. Ou talvez não seja.
Mas no dia em que aceitarmos todos os crimes como meras manifestações de doença estaremos também a desculpar o criminoso e a subverter as categorias básicas da nossa vida comum.
Estaremos a apagar para sempre palavras como "liberdade", "responsabilidade", "culpa", "certo" e "errado".
Quem deseja mesmo viver num mundo assim?

jpcoutinho@folha.com.br

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 18/01/2011.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Entrevista com neurologista americano Kevin Nelson

NEUROLOGISTA AMERICANO CONTA EM LIVRO O QUE FAZ O CÉREBRO CRIAR AS IMAGENS DE TÚNEIS DE LUZ E A VISÃO EXTRACORPÓREA
GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO

Túneis iluminados, espíritos e a sensação de que o corpo está levitando. As experiências de quem ficou entre a vida e a morte são o material de trabalho do neurologista Kevin Nelson. Para entender melhor o fenômeno, Nelson fez um estudo com 55 pessoas que relataram essas experiências e descobriu que, nelas, os limites entre os estágios da consciência são mais tênues. É o que ele relata em "The Spiritual Doorway in the Brain", livro lançado em dezembro nos EUA. O médico concedeu entrevista à Folha, por telefone.
*** 

Folha - Qual a explicação para o fenômeno da quase morte?
Kevin Nelson
- Há no cérebro uma espécie de "interruptor" que alterna entre os estágios da consciência. Ao dormir, passamos pelos estágios de vigília, sono não REM e sono REM. Em algumas pessoas, a fronteira entre esses estágios não é tão marcada e, em momentos de crise, o estágio REM invade a vigília e causa os efeitos descritos nas experiências de quase morte.

Quais são esses momentos de crise?
Uma parada cardíaca, por exemplo. O "interruptor" que modula entre a vigília e o REM é uma parte essencial do sistema de reflexos do sistema nervoso. Quando o fluxo sanguíneo diminui no cérebro, acionamos esses reflexos, localizados numa área bastante primitiva do cérebro. É quando ocorrem as experiências de quase morte e nos movemos em direção às fronteiras entre a vigília e o REM. Em algumas pessoas, isso pode ficar misturado.

Essas experiência só ocorrem em situações extremas?
Sabemos que desmaios também podem desencadear a experiência de quase morte, pelos mesmos mecanismos: as pessoas se sentem em perigo e ocorre alteração da pressão sanguínea na cabeça. O fato fascinante é que um terço das pessoas desmaia em algum momento da vida, o que pode fazer dessas experiências algo mais comum do que se pensa.

Há algo diferente no cérebro das pessoas que têm essas sensações?
Em 2005, comecei a estudar pessoas com um histórico de quase morte. Depois de comparar 55 pacientes nessa situação com 55 outras pessoas que nunca passaram por isso, descobrimos que o primeiro grupo era mais suscetível a ter essa intromissão do sono REM na vigília.

Pessoas relatam luzes e a sensação de levitar. Por quê?
Se o fluxo sanguíneo está diminuindo na região da cabeça, diminui também nos olhos, deixando a visão borrada nas bordas e criando a impressão de que há um túnel com luzes. Já quanto às experiências extracorpóreas, sabe-se que ao "desligar" a região temporoparietal do cérebro, ligada à percepção espacial, podemos tirar a pessoa do seu corpo. Essa é a mesma área do cérebro que é "desligada" durante o REM.

E as alucinações?
Quando entramos no estágio REM, o cérebro ativa o mesmo mecanismo que produz os sonhos. Mas as alucinações da quase morte não são sonhos propriamente ditos, parecem mais sonhos lúcidos, porque ocorrem enquanto estamos conscientes.

Você já recebeu críticas por estudar cientificamente o que alguns julgam ser uma experiência espiritual?
Não estou interessado em saber por que o cérebro age de alguma forma ou por que esse "momento espiritual" ocorre, mas em como o cérebro trabalha. Se separamos o "por que" do "como", muito do conflito entre ciência e religião desaparece.
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THE SPIRITUAL DOORWAY IN
THE BRAIN
Kevin Nelson
EDITORA Dutton
QUANTO US$ 16,77 (R$ 28,31), na Amazon (336 págs.)
* Entrevista publicada na Folha de S.Paulo, em 17/01/2011.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Jô Soares entrevista socióloga que lança livro sobre espiritismo

A socióloga e historiadora Célia da Graça Arribas, em entrevista no Programa do Jô, de 17 de dezembro de 2010, fala sobre o espiritismo e sobre o livro de sua autoria, recém lançado, intitulado "Afinal, espiritismo é religião?" (Editora Alameda).