quinta-feira, 16 de setembro de 2010

De Outro Espaço

HAWKING E DEUS: RELAÇÃO ÍNTIMA

MARCELO GLEISER


 
Stephen Hawking, o famoso físico da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, está mais uma vez ocupando manchetes e blogs pelo mundo afora. A razão é a publicação de seu livro "O Grandioso Design" ("The Grand Design"), com Leonard Mlodinow, do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia).

A atenção é consequência da afirmação feita por Hawking de que a física resolveu a questão da origem do Universo e que, portanto, Deus não é necessário. Na verdade, isso não passa de mais uma batalha numa guerra um tanto longa e inútil.

Em seu bestseller "Uma Breve História do Tempo", publicado em 1988, Hawking escreveu: "Se o Universo é contido em si mesmo, sem borda ou fronteira, não teria começo ou fim: simplesmente seria. Neste caso, qual o lugar de um criador?"

Mais adiante: "Se descobrirmos uma teoria completa, filósofos, cientistas e o público leigo tomariam parte na discussão de por que o Universo e nós existimos. Se encontrarmos a resposta, seria o grande triunfo da razão humana, pois, então, conheceríamos a mente de Deus".

Hawking afirma que tem novos argumentos que colocam Deus para escanteio de vez. Será?

A ideia dele, que já circula de formas diferentes desde os anos 70, vem do casamento da relatividade e da mecânica quântica para explicar a origem do Universo, isto é, como tudo veio do nada.

Primeiro, usamos as propriedades atrativas da gravidade para mostrar que o cosmo é uma solução com energia zero (o "nada" de onde tudo vem) das equações que descrevem sua evolução.

Segundo, como na mecânica quântica (que descreve elétrons, átomos etc.) tudo flutua, o Universo pode ser resultado de uma flutuação de energia nula a partir de uma entidade que "contêm" todos os Universos possíveis, o multiverso.

Nosso Universo é o que tem as propriedades certas para existir por tempo suficiente -quase 14 bilhões de anos- para formar estrelas, planetas e também vida.

Em meu livro "Criação Imperfeita", publicado em março, argumento exatamente o oposto. Descrevo como afirmações que defendem a existência de uma "teoria de tudo" são incompatíveis com a física.

As teorias que Hawking e Mlodinow usam para basear seus argumentos -teorias-M, vindas das supercordas- têm tanta evidência empírica quanto Deus.

É lamentável que físicos como Hawking estejam divulgando teorias especulativas como quase concluídas. A euforia na mídia é compreensível: o homem quer ser Deus.

O desafio das teorias a que Hawking se refere é justamente estabelecer qualquer traço de evidência observacional, até agora inexistente. Não sabemos nem mesmo se essas teorias fazem sentido. Certas noções, como a existência de um multiverso, não parecem ser testáveis.

Ademais, a existência de uma teoria final é incompatível com o caráter empírico da física, baseado na coleta gradual de dados. Não vejo como poderemos ter certeza de que uma teoria final é mesmo final.
Como nos mostra a história da ciência, surpresas ocorrem a toda hora. Talvez esteja na hora de Hawking deixar Deus em paz.

Leitores interessados podem ver uma comparação entre meu livro e o de Hawking no blog do jornal "New York Times": http://ideas.blogs.nytimes.com/2010/09/07/not-so-grand-design/



* Artigo publicado na Folha de S.Paulo e no blog http://marcelogleiser.blogspot.com , em 12/09/2010.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Apesar de tom didático, "Nosso Lar" torna atraente história espiritual

Valdo Cruz


"Nosso Lar", o filme, é uma leitura bem próxima da realidade da "vida depois da vida" retratada no livro homônimo, psicografado pelo médium Chico Xavier.

Para quem não acredita, deve soar estranho ler que o filme reproduz com tons de realidade o que acontece do outro lado. Nada de descanso eterno nem um vazio completo, mas uma vida quase idêntica à que levamos por aqui.

Isso mesmo. Ao ler o livro ou assistir ao filme, a pessoa "descobrirá" que tudo segue num ritmo semelhante ao atual depois da morte: trabalho, comida, angústias, dores, alegrias, moradias, transporte.

A diferença é o cenário, futurista, com tecnologias avançadas que, um dia, prometem o livro e o filme, estarão presentes entre nós na vida terrestre.

Além do fato de, antes, corrermos o risco de dar uma passada pelo umbral, espécie de purgatório na linguagem católica, retratado no filme como um vale de sombras. Da forma como é descrito no livro.

Para quem acredita, o filme emociona e reforça convicções, mas incomoda em alguns momentos pelo tom didático de alguns diálogos, travados em um tom superficial, quase amador.

Nesses trechos, o diretor buscou transformar o filme numa aula sobre espiritismo. Foi fiel à doutrina, mas perdeu em naturalidade. Ausente também em algumas cenas, com imagens próximas às de maquetes e num estilo bem teatral.

Nada que desmereça o filme. Pelo contrário. É uma boa produção nacional, com um roteiro que, como espírita, considero competente ao sintetizar e tornar atraente a história da chegada do médico André Luiz numa colônia espiritual.

Por fim, apesar de carregar nos tons de "introdução ao kardecismo", a doutrina de Alan Kardec que difundiu a crença na reencarnação e na comunicação entre vivos e mortos, o filme pode ser apreciado por crentes ou descrentes.

Vale pela mensagem que transmite, de que devemos estar sempre prontos para recomeçar do zero, sem ressentimentos, culpa e vaidades. Aqui ou lá. Afinal, tudo é efêmero.
 
* Valdo Cruz é jornalista. Publicado na Folha de S.Paulo, em 12/09/2010.

O blog

Este blog visa à discussão aberta e plural de assuntos envolvendo o espírito e a espiritualidade. Não se trata de um espaço para pregações dogmáticas, mas para a exposição de diversas interpretações possíveis sobre o espírito, sem a intenção de alcançar uma verdade que se pretenda absoluta ou incontestável. Comentários, opiniões distintas, mesmo divergentes – desde que respeitosas – e críticas são muito bem-vindas; afinal, são ingredientes indispensáveis ao desenvolvimento de qualquer debate.

João F. Quirino