segunda-feira, 21 de março de 2011

De outro espaço

Conversa sobre a Fé e a Ciência

Marcelo Gleiser


Na semana que vem sai meu novo livro, em parceria com Frei Betto e com intermediação de Waldemar Falcão, "Conversa Sobre a Fé e a Ciência", pela Nova Fronteira. Temos alguns eventos no Rio e em São Paulo, de que espero participar via teleconferência, aproveitando os benefícios de nossa era digital.
Conversas sobre ciência e religião, em geral, terminam em briga. Mas não deveriam. Talvez seja essa uma das lições mais importantes que Frei Betto e eu queremos passar.
Reconheço que somos dois exemplos um pouco alternativos. Eu, como cientista, mantenho uma posição de respeito pela religião. Frei Betto, como pensador político e teólogo cristão, mantém uma posição aberta em relação à ciência. Começamos a conversa sem nos conhecermos e terminamos amigos.
Frei Betto concorda comigo que é absurdo fechar os olhos para os avanços da ciência, negando suas descobertas. Concorda, também, que a religião não deve ser usada fora de seu contexto, especialmente como um substituto da ciência.
Usar a Bíblia como texto científico, tentar extrair de sua narrativa simbólica fatos sobre o surgimento do Universo e da vida, é retornar ao obscurantismo da Idade Média. Por outro lado, concordamos plenamente que a ciência não se propõe a atingir uma verdade "absoluta".
Verdades dependem de quando são formuladas, ou seja, do contexto histórico em que são buscadas.
Por exemplo, para os gregos, era "verdade" que a Terra era o centro do Universo; até o fim do século 18, era "verdade" que o Sol era o centro do Universo; até 1924, era "verdade" que a Via Láctea era a única galáxia no Universo. Com o avanço da ciência, essas verdades foram substituídas por outras.

Apesar de não haver dúvida de que certos fatos científicos permanecem inalterados com o passar do tempo (por exemplo, as leis de Newton), chamá-los de "verdades" talvez seja imprudente.
A ciência é uma narrativa que se ocupa do mistério, do não saber. Ela não tem capítulo final. Seu foco não é a busca pela verdade, mas por uma descrição do mundo que esteja de acordo com nossas observações.
Por outro lado, as religiões organizadas, com seu dogmatismo intransigente, distorcem o real sentido da fé. Nisso, Frei Betto e eu também concordamos plenamente (para ver no que mais concordamos e no que discordamos, é preciso ler o livro).
No cerne da religião, no ato de devoção religiosa, encontramos a espiritualidade pura, individual, que tece uma relação profunda entre o homem e o Universo e entre o homem e a sua consciência.
Frei Betto menciona Santa Teresa D'Ávila como alguém que alcançou um nível exemplar de transcendência pessoal e de comunhão com o divino. Aprendi muito durante nossa "conversa" e saí admirando meu interlocutor ainda mais.
Vejo a ciência, no aspecto mais puro e humano, como uma busca por transcendência, em que o espírito humano se une ao mundo natural para criar novas formas de pensar a nossa existência e, por meio da tecnologia, para criar expressões materiais dessa comunhão. Sob esse prisma, os caminhos da razão e do espírito são um só, simbolizando a essência do ser humano, que é a busca por significado num mundo cheio de mistérios.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"
* Publicado na Folha de S.Paulo, em 20/03/2011.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma reflexão sobre a parábola dos talentos

Jacira Jacinto da Silva


Resumidamente, de acordo com a parábola dos Talentos, o senhor, antes de partir, entregou valores em dinheiro a três dos seus servos, sendo um ao primeiro, dois ao segundo e dez ao terceiro. Quando retornou foi ter com os trabalhadores, quando os dois últimos prestaram contas, informando que trabalharam com aqueles valores e os multiplicaram, entregando em dobro a soma recebida. O primeiro deles alegou que temendo a severidade do seu senhor, enterrou o dinheiro recebido com medo de perdê-lo e agora o tinha íntegro para devolvê-lo. Conta o evangelho que o senhor abençoou os dois últimos e amaldiçoou o primeiro.

Convivemos uma vida inteira com a brilhante lição de vida traduzida pela Parábola dos Talentos, que certamente já ouvimos alguma vez, desperdiçando-a, descuidando de interpretá-la e extrair dela a grande lição que Jesus deixou sobre a Terra. E porque será? Porque não nos importamos com a bíblia? Porque as parábolas dizem pouco, ou porque nos recusamos a enfrentar a importante lição que tal pronunciamento representa?

Em verdade, nós vivemos fugindo das reflexões profundas porque, em regra, elas nos enchem de responsabilidade. Esta parábola, particularmente, embora seja lida com certa freqüência na igreja católica, nos centros espíritas, nas igrejas evangélicas e pentecostais, passa despercebida, como se não estivesse nos dizendo nada. Mas é esperteza nossa. Esperteza sim, pois encarar de frente uma imposição, legal ou moral, é muito difícil, especialmente quando sabemos que não a cumprimos. Tal se dá com esta passagem do evangelho de Jesus.

A lição é clara, de modo que não exige grande exercício hermenêutico para extrair dela a necessária compreensão. Não importa quantos talentos nós temos, ou seja, se temos muito dinheiro, muita simpatia, muita cultura, manejos especiais na arte ou no esporte, etc. Seja qual for o tamanho do nosso talento, nós precisamos multiplicá-lo, reproduzi-lo, expandi-lo, inundar o entorno da nossa potencialidade, fazendo com que esses talentos extravasem o nosso mundo particular e alcancem outras pessoas.

Quantas vezes, sendo bem sinceros com nós mesmos, já não pensamos que se estivéssemos em determinada situação, se possuíssemos mais dinheiro, ou se tivéssemos mais tempo, ou enfim, se fosse outra a nossa vida, nós nos dedicaríamos à prática do bem, fundaríamos uma escola, ajudaríamos projetos de proteção ambiental, lançaríamos uma campanha de conscientização política, etc. Ledo engano! Enquanto estamos pensando assim, nada mais estamos fazendo, senão enterrando nossos talentos, passando a vida em brancas nuvens e deixando-os inertes no fundo da terra. Será que não podemos fazer absolutamente nada para mudar o mundo?

Não dá para alegrar um pouco o ambiente familiar? Colocar umas flores em casa, mudar os móveis, colocar uma música para tocar? E convidar o vizinho para uma conversa? Visitar um doente? Doar algumas coisas que estão entulhando nosso armário, aproveitando a oportunidade para conhecer a vida dura de alguém que precisa da nossa sobra? E visitar a escola dos nossos filhos? Ou a do nosso bairro? Nunca podemos levar um biscoito na casa da vizinha só para desejar boa semana? E uma visita à Câmara Municipal? Ou a leitura de um bom livro em grupo, proporcionando o debate e o despertar das idéias?

Sim, há muito que fazer para reproduzir nossos talentos, mas acontece que somos tão egoístas e preguiçosos que às vezes nem nós mesmos os reconhecemos para não precisarmos dividir com ninguém.

Antes de colocar em prática essa parábola de Jesus –  registre-se, ensinada há dois mil anos –  precisamos conhecer os nossos talentos. Nós sabemos ler? Então já podemos ensinar alguém a ler. Nós estudamos arte? Então já podemos dividir esta aptidão, arrancando dotes artísticos que dormem escondidos em pessoas que não tiveram a oportunidade de exercitá-los. Nós temos o dom da oratória, sabemos falar bem? Então já podemos fazer palestras, passando adiante os estudos que fizemos e o aprendizado que deles extraímos.

Esta história de que não somos nada, quem somos nós, etc., é um ótimo pretexto para potencializarmos o nosso egoísmo e nos acomodarmos no nosso mundinho sem fazer nada de bom. Todos podemos trabalhar para construir um mundo melhor, bastando que estejamos interessados nisso, que tenhamos um anseio de colocar nossas energias a serviço dos outros, do mundo e de todos.

Se soubermos manejar a agulha de tricô, o serrote, o lápis, o livro, um instrumento musical, a tinta, a farinha, ou qualquer outro material que sirva para produzir conhecimento ou aliviar a dor de alguém, estamos prontos para multiplicar nossos talentos, sejam eles quais forem.

Nisso consiste a advertência de Jesus de Nazareth, para que não enterrássemos nossos talentos, fossem eles quantos fossem, um, dois, ou dez, eles precisariam ser trabalhados, valorizados e multiplicados. Todos podemos e todos devemos.


§ Juíza de direito em Bragança Paulista, espírita de nascimento, membro do CPDoc e da CEPABrasil.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Espiritismo galopante

Marcelo Leite

Talvez por excesso de otimismo, tendo a encarar a proliferação de filmes, livros e minisséries de TV sobre espiritismo e Chico Xavier como frutos maduros do oportunismo comercial. A credulidade do homem comum, afinal, precisa ser reavivada de tempos em tempos pela indústria cultural com novas doses de vampiros e zumbis, premonições e psicografias.

Surge agora a dúvida: quando produtores culturais mais "sérios" e reconhecidos também sucumbem às forças do além, haverá aí um fenômeno mais profundo da época, digno da atenção de ateus, céticos e admiradores das ciências naturais? Uma pergunta para Clint Eastwood e Alejandro González Iñárritu.

Aproveitando um raro fim de semana em São Paulo, no meu programa estava uma dose dupla de cinema: "Além da Vida", de Eastwood, e "Biutiful", de Iñárritu. Resultou numa dose dupla de espiritismo. No primeiro caso, pelo menos, era óbvia --a começar pelo título-- a vinculação com a morte.

Eastwood dispensa apresentações e elogios. É daquelas coisas da vida que ficam melhores quanto mais envelhecem. Seu filme anterior, "Gran Torino", é cativante. Mas até os melhores vinhos podem estragar-se com o correr do tempo, e uma ou outra garrafa termina com gosto de rolha ("bouchonné").

O sabor de rolha, revela investigação química, pode originar-se tanto da própria quanto dos tonéis em que o vinho envelhece. Nem sempre é possível separar uma coisa da outra. No caso de "Além da Vida", Eastwood assumiu o risco de avinagrar o filme com dois supostos fenômenos paranormais de uma vez: experiências de quase morte e comunicações com os mortos.

O primeiro garante o entrecho mais interessante do filme: jornalista francesa tem sua vida virada de ponta-cabeça depois de quase empacotar num tsunami e ter visões intrigantes --luzes intensas, experiência extracorpórea etc. --nos instantes em que se equilibrava entre viver e morrer. Nada implausível. Nada que contrarie o bom senso e não seja em princípio investigável pela neurociência.

Já há até livro sobre o assunto: "The Spiritual Doorway in the Brain" (A Porta Espiritual no Cérebro), do neurologista Kevin Nelson, de quem a Folha publicou uma entrevista recente. Ele entrevistou 55 pessoas que passaram por essas vivências limítrofes e alega ter descoberto nelas uma fronteira mais permeável entre sonho e vigília.

Eis como Nelson começa a explicar, neurologicamente, a experiência de quase morte: "Se o fluxo sanguíneo está diminuindo na região da cabeça, diminui também nos olhos, deixando a visão borrada nas bordas e criando a impressão de que há um túnel com luzes. Já quanto às experiências extracorpóreas, sabe-se que ao 'desligar' a região temporoparietal do cérebro, ligada à percepção espacial, podemos tirar a pessoa do seu corpo. Essa é a mesma área do cérebro que é 'desligada' durante o REM [fase do sono em que ocorrem os sonhos]."

O problema com "Além da Vida" está no personagem de George Lonegan, vivido por Matt Damon. Trata-se de um vidente recalcitrante, que tenta deixar de exercer o dom de passar a falar de imediato com o morto que o cliente tem em vista, ao tocar suas mãos. Eis aí um fenômeno inabordável pela pesquisa científica. Nem mesmo para documentação (quanto mais explicação), porque ocorre na esfera indevassável da experiência mental subjetiva.

Uma coisa é enxergar luzes, sombras, túneis, silhuetas ou faces --e atribuí-las a vivos e mortos, presentes ou futuros; as ocorrências visuais podem ao menos ser investigadas por seus correlatos físico-químicos no tecido cerebral. Outra, muito diversa, é "falar" com determinada pessoa morta e receber dela informações precisas, opiniões, juízos de valor, admoestações. Não há como registrá-los objetivamente, é preciso confiar em testemunhos. Só candidatos a um prêmio IgNobel se arriscariam.

Apesar disso, a fita de Eastwood põe um arremedo de explicação científica na boca de Lonegan, uma baboseira sobre febre na infância seguida de cirurgia da qual alguma ligação cerebral resultou embaralhada na cabeça do vidente. Um dos pontos mais baixos nas carreiras de Matt Damon e Clint Eastwood.

Também parece supérflua a atribuição de similar aptidão comunicativa além-túmulo a Uxbal, personagem encarnado por Javier Bardem em "Biutiful", de González Iñárritu. Ajudou a compor uma das cenas mais belas do filme, a do velório de três meninos, mas não chega a justificar a normalização cinematográfica dessa crendice sem pé nem cabeça.

Para dar vazão a esse lixo ocultista, bastam a TV e o rentável nicho de mercado em que pululam pescoços pálidos e sublimação de atos sexuais em mordidas vampirescas. Há gosto para tudo. De Eastwood e Iñárritu se espera biscoito mais refinado, livre do espessante espírita.


MARCELO LEITE é repórter especial da Folha de S.Paulo, autor dos livros "Folha Explica Darwin" (Publifolha) e "Ciência - Use com Cuidado" (Unicamp) e responsável pelo blog Ciência em Dia (Ciência em dia). Escreve às quartas-feiras neste espaço.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

De Outro Espaço

A DOENÇA DO CRIME

JOÃO PEREIRA COUTINHO


Portugal passou a semana em estado de choque. Não necessariamente por estar no limiar da bancarrota, preparando-se para receber o Fundo Monetário Internacional pela terceira vez em 37 anos de democracia. Mas pela morte de um conhecido jornalista luso barbaramente assassinado em Nova York. Eis os fatos: o jornalista, Carlos Castro, 65, era um "gadfly" social, que relatava nas páginas do diário "Correio da Manhã" (em que escrevo uma coluna política três vezes por semana) a vida dos famosos. Era também homossexual assumidíssimo e militantíssimo. E presença assídua na televisão portuguesa.
Depois do Natal, partiu para Nova York na companhia de um modelo, ou aspirante a modelo, de 21 anos. Paixão? Relação "profissional"?
A doutrina divide-se. Os familiares do rapaz juram publicamente a heterossexualidade dele.
Amigos do jornalista, pelo contrário, falam em paixão, namoro, quando muito relação "platônica".
Os mais céticos dizem simplesmente que o rapaz pretendia aproveitar-se do jornalista para subir na carreira. Não saberemos a verdade.
Porque a única verdade que interessa é a morte. No passado dia 7 de janeiro, em hotel de luxo da Broadway, Carlos Castro foi assassinado no quarto do hotel.
"Assassinado" é termo demasiado brando: foi espancado, estrangulado, desfigurado e, finalmente, castrado. Com um vulgar saca-rolhas.
O principal suspeito acabaria preso e está hoje internado no hospital psiquiátrico de Bellevue, após confissão dos atos.
Aguarda julgamento. Prisão perpétua é uma hipótese.
O caso horrorizou os portugueses pelos contornos lúgubres do homicídio e, claro, pela fama do jornalista.
Mas aquilo que me horrorizou a mim não foi propriamente o homicídio. Nem sequer as reações ao homicídio na internet, onde a boçalidade anônima só comprovou a quantidade de homossexuais reprimidos que existem em Portugal.
O que me horrorizou foram os médicos que assaltaram as televisões e os jornais para "explicar" o sucedido.
"Explicar", aqui, no sentido patológico do verbo: para todos eles, matar um ser humano com tal nível de brutalidade não é "normal". É a manifestação de uma doença, ou de várias, que privaram o jovem da sua racionalidade.
Ponto de ordem: não excluo tal hipótese. E admito que a defesa legal do rapaz acabe por alegar insanidade momentânea, embora a estratégia nem sempre seja a mais aconselhada: li algures que, nos Estados Unidos, é residual o número de casos onde é alegada a insanidade; e é ainda mais reduzido o número de sentenças baseadas na insanidade do réu, que normalmente passa mais tempo nos calabouços de um manicômio do que na prisão propriamente dita.
Mas o meu problema não é legal; é moral. É, no fundo, observar a forma como as nossas sociedades foram "medicalizando" o mal, negando-lhe a sua dimensão humana, demasiado humana.
Sempre foi assim, eu sei. A existência do mal é o problema teológico "par excellence": como conciliar a existência de um Deus onipotente e onisciente com a presença do mal no mundo?
Alguns brasileiros, confrontados com a inominável tragédia que se abateu sobre o país nestes dias, poderão mesmo repetir a frase de Voltaire da época do terremoto que dizimou Lisboa em 1755: "Como pode Deus permitir a morte de centenas, milhares de inocentes?"
Não tenho a pretensão de responder a tal questão. Duvido, aliás, que uma tal questão tenha resposta.
Prefiro lidar com tragédias menores, terrenas, domésticas. E perguntar, mais modestamente, por que motivo "medicalizamos" aquilo que nos é racionalmente aberrante?
Ou, dito de outra forma, por que razão nos recusamos a aceitar que o mal faz parte da nossa condição humana?
A resposta óbvia seria afirmar que a medicina, e em especial a neurologia e a psiquiatria, conquistaram novos e desconhecidos territórios: o assassino de ontem é o doente de hoje. E, quem sabe, será curado amanhã.
Talvez seja. Ou talvez não seja.
Mas no dia em que aceitarmos todos os crimes como meras manifestações de doença estaremos também a desculpar o criminoso e a subverter as categorias básicas da nossa vida comum.
Estaremos a apagar para sempre palavras como "liberdade", "responsabilidade", "culpa", "certo" e "errado".
Quem deseja mesmo viver num mundo assim?

jpcoutinho@folha.com.br

* Publicado na Folha de S.Paulo, em 18/01/2011.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Entrevista com neurologista americano Kevin Nelson

NEUROLOGISTA AMERICANO CONTA EM LIVRO O QUE FAZ O CÉREBRO CRIAR AS IMAGENS DE TÚNEIS DE LUZ E A VISÃO EXTRACORPÓREA
GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO

Túneis iluminados, espíritos e a sensação de que o corpo está levitando. As experiências de quem ficou entre a vida e a morte são o material de trabalho do neurologista Kevin Nelson. Para entender melhor o fenômeno, Nelson fez um estudo com 55 pessoas que relataram essas experiências e descobriu que, nelas, os limites entre os estágios da consciência são mais tênues. É o que ele relata em "The Spiritual Doorway in the Brain", livro lançado em dezembro nos EUA. O médico concedeu entrevista à Folha, por telefone.
*** 

Folha - Qual a explicação para o fenômeno da quase morte?
Kevin Nelson
- Há no cérebro uma espécie de "interruptor" que alterna entre os estágios da consciência. Ao dormir, passamos pelos estágios de vigília, sono não REM e sono REM. Em algumas pessoas, a fronteira entre esses estágios não é tão marcada e, em momentos de crise, o estágio REM invade a vigília e causa os efeitos descritos nas experiências de quase morte.

Quais são esses momentos de crise?
Uma parada cardíaca, por exemplo. O "interruptor" que modula entre a vigília e o REM é uma parte essencial do sistema de reflexos do sistema nervoso. Quando o fluxo sanguíneo diminui no cérebro, acionamos esses reflexos, localizados numa área bastante primitiva do cérebro. É quando ocorrem as experiências de quase morte e nos movemos em direção às fronteiras entre a vigília e o REM. Em algumas pessoas, isso pode ficar misturado.

Essas experiência só ocorrem em situações extremas?
Sabemos que desmaios também podem desencadear a experiência de quase morte, pelos mesmos mecanismos: as pessoas se sentem em perigo e ocorre alteração da pressão sanguínea na cabeça. O fato fascinante é que um terço das pessoas desmaia em algum momento da vida, o que pode fazer dessas experiências algo mais comum do que se pensa.

Há algo diferente no cérebro das pessoas que têm essas sensações?
Em 2005, comecei a estudar pessoas com um histórico de quase morte. Depois de comparar 55 pacientes nessa situação com 55 outras pessoas que nunca passaram por isso, descobrimos que o primeiro grupo era mais suscetível a ter essa intromissão do sono REM na vigília.

Pessoas relatam luzes e a sensação de levitar. Por quê?
Se o fluxo sanguíneo está diminuindo na região da cabeça, diminui também nos olhos, deixando a visão borrada nas bordas e criando a impressão de que há um túnel com luzes. Já quanto às experiências extracorpóreas, sabe-se que ao "desligar" a região temporoparietal do cérebro, ligada à percepção espacial, podemos tirar a pessoa do seu corpo. Essa é a mesma área do cérebro que é "desligada" durante o REM.

E as alucinações?
Quando entramos no estágio REM, o cérebro ativa o mesmo mecanismo que produz os sonhos. Mas as alucinações da quase morte não são sonhos propriamente ditos, parecem mais sonhos lúcidos, porque ocorrem enquanto estamos conscientes.

Você já recebeu críticas por estudar cientificamente o que alguns julgam ser uma experiência espiritual?
Não estou interessado em saber por que o cérebro age de alguma forma ou por que esse "momento espiritual" ocorre, mas em como o cérebro trabalha. Se separamos o "por que" do "como", muito do conflito entre ciência e religião desaparece.
***
THE SPIRITUAL DOORWAY IN
THE BRAIN
Kevin Nelson
EDITORA Dutton
QUANTO US$ 16,77 (R$ 28,31), na Amazon (336 págs.)
* Entrevista publicada na Folha de S.Paulo, em 17/01/2011.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Jô Soares entrevista socióloga que lança livro sobre espiritismo

A socióloga e historiadora Célia da Graça Arribas, em entrevista no Programa do Jô, de 17 de dezembro de 2010, fala sobre o espiritismo e sobre o livro de sua autoria, recém lançado, intitulado "Afinal, espiritismo é religião?" (Editora Alameda).


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

De Outro Espaço

HAWKING E DEUS: RELAÇÃO ÍNTIMA

MARCELO GLEISER


 
Stephen Hawking, o famoso físico da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, está mais uma vez ocupando manchetes e blogs pelo mundo afora. A razão é a publicação de seu livro "O Grandioso Design" ("The Grand Design"), com Leonard Mlodinow, do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia).

A atenção é consequência da afirmação feita por Hawking de que a física resolveu a questão da origem do Universo e que, portanto, Deus não é necessário. Na verdade, isso não passa de mais uma batalha numa guerra um tanto longa e inútil.

Em seu bestseller "Uma Breve História do Tempo", publicado em 1988, Hawking escreveu: "Se o Universo é contido em si mesmo, sem borda ou fronteira, não teria começo ou fim: simplesmente seria. Neste caso, qual o lugar de um criador?"

Mais adiante: "Se descobrirmos uma teoria completa, filósofos, cientistas e o público leigo tomariam parte na discussão de por que o Universo e nós existimos. Se encontrarmos a resposta, seria o grande triunfo da razão humana, pois, então, conheceríamos a mente de Deus".

Hawking afirma que tem novos argumentos que colocam Deus para escanteio de vez. Será?

A ideia dele, que já circula de formas diferentes desde os anos 70, vem do casamento da relatividade e da mecânica quântica para explicar a origem do Universo, isto é, como tudo veio do nada.

Primeiro, usamos as propriedades atrativas da gravidade para mostrar que o cosmo é uma solução com energia zero (o "nada" de onde tudo vem) das equações que descrevem sua evolução.

Segundo, como na mecânica quântica (que descreve elétrons, átomos etc.) tudo flutua, o Universo pode ser resultado de uma flutuação de energia nula a partir de uma entidade que "contêm" todos os Universos possíveis, o multiverso.

Nosso Universo é o que tem as propriedades certas para existir por tempo suficiente -quase 14 bilhões de anos- para formar estrelas, planetas e também vida.

Em meu livro "Criação Imperfeita", publicado em março, argumento exatamente o oposto. Descrevo como afirmações que defendem a existência de uma "teoria de tudo" são incompatíveis com a física.

As teorias que Hawking e Mlodinow usam para basear seus argumentos -teorias-M, vindas das supercordas- têm tanta evidência empírica quanto Deus.

É lamentável que físicos como Hawking estejam divulgando teorias especulativas como quase concluídas. A euforia na mídia é compreensível: o homem quer ser Deus.

O desafio das teorias a que Hawking se refere é justamente estabelecer qualquer traço de evidência observacional, até agora inexistente. Não sabemos nem mesmo se essas teorias fazem sentido. Certas noções, como a existência de um multiverso, não parecem ser testáveis.

Ademais, a existência de uma teoria final é incompatível com o caráter empírico da física, baseado na coleta gradual de dados. Não vejo como poderemos ter certeza de que uma teoria final é mesmo final.
Como nos mostra a história da ciência, surpresas ocorrem a toda hora. Talvez esteja na hora de Hawking deixar Deus em paz.

Leitores interessados podem ver uma comparação entre meu livro e o de Hawking no blog do jornal "New York Times": http://ideas.blogs.nytimes.com/2010/09/07/not-so-grand-design/



* Artigo publicado na Folha de S.Paulo e no blog http://marcelogleiser.blogspot.com , em 12/09/2010.